evig: (9 - folhas)
Juliet ([personal profile] evig) wrote in [community profile] contemspoiler2016-01-20 05:49 pm

A Dúvida ( e o Fantástico ) em Biofobia

Eu considero difícil a terefa de resenhar um livro de que gosto muito. Li numa cassetada só e parei apenas para absorver o capítulo clímax que é de uma narratividade forte e poética. Não é apenas as imagens e a ação que te prendem ao livro, é o modo como Nazarian te envolve em seu humor ácido e os pensamentos desse roqueiro fracassado, que também é um fracasso de pessoa, mas que você não deixa de gostar dele em todo seu egoísmo e atitudes de adolescente.

André é um "emo velho", palavras dele próprio. Vive do sucesso do passado, dos amores do passado e faz pouco para tentar se reerguer. Não há uma diferença clara ente os pensamentos de André e a ação narrada por um narrador que quase desaparece; o que é importante para a perscectiva dúbia do protagonista e de todo o livro. Não é um relato em primeira pessoa; mesmo quando estamos dentro da mente do protagonista o narrador usa pretérito mais que perfeito, e, bom, quem pensa em pretérito mais que perfeito? Um outro momento que você percebe que há um narrador é na cena depois do clímax, quando o leitor passeia pela casa agora vazia, e revisita a lareira, a televisão, a parede infiltrada, o banheiro e vai até o quarto da mãe. Seria o espírito ou a memória de André, já longe dalí? Ou um outro espírito, o da mata? Ou a câmera do nosso filme particular?

Imerso em sua crise, o leitor pode até sentir um pouco de pena de André em algum momento, mas o mais legal é quando você não sente. É aí que fica divertido. Num determinado momento, André queima livros enquanto ele e um amigo cheiram cocaína (disposta na capa de Só o Pó, do Marcelino Freire), queima Feriado de Mim Mesmo do próprio autor (nãoooo) e num momento que eu particularmente ri muito (?), ele queima a antologia Granta: Os melhores jovens autores brasileiros, que o Nazarian disse uma vez em seu blog que ficou muito rancoroso de não ter participado, então julguei ser o seu momento de exorcismo.

Aliás, o único livro que o protagonista se interessa da vasta coleção de sua falecida mãe é O Exorcista, uma das inúmeras referências ao terror que o livro trás. Umas das cenas mais emblemáticas do cinema é reproduzida no banheiro e você ouve a trilha sonora de Psicose quase que instantaneamente. O próprio André incorpora em pensamentos seu repertório de filmes de terror num movimento muito bacana de auto-zombaria que confunde o leitor quando as coisas vão ficando cada vez mais esquisitas: galhos de árvores crescendo da noite pro dia, televisão velha sintonizando sozinha uma entrevista da mãe, o cachorro que desaparece, uma parede com infiltração em forma de um corpo. Todas essas esquisitices podem ter uma explicação lógica, ou podem ser apenas fruto de alucinações regadas às drogas, à claustrofobia e à crise de meia-idade do protagonista, ou ainda pode ser que o mato em volta esteja "vivo" e quer se apoderar da casa. Esta dúvida é justamente o movimento do fantástico. Todorov diz: "O fantástico é a vacilação experimentada por um ser que não conhece mais que as leis naturais, frente a um acontecimento aparentemente sobrenatural." e que "O fantástico implica pois uma integração do leitor com o mundo dos personagens; define-se pela percepção ambígua que o próprio leitor tem dos acontecimentos relatados.". Por isso é ainda mais interessante que mesmo ao final, o leitor não tem certeza se acredita na loucura, no sobrenatural ou no insólito. A dúvida é benéfica e intencional.

E aqui eu faço uma ressalva que eu considero muito importante, que é a falta de boas narrativas, densas e profundas que caminham pelo fantástico (pensando no Brasil contemporâneo). Reconheço que há um esforço, principalmente nos contos que retomam narrativas folclóricas e isso é interessante. Mas no geral há ótimas histórias que bebem muito do terror norte-americano, principalmente do cinema, mas que pecam no vazio de seus personagens, ou caem na alegoria barata ou simplesmente jogam um monte de gore nas páginas meio sem mais nem menos, ou é apenas muito mal narrado. Isso ajuda a péssima fama do gênero de ser apenas entreterimento. Não leio a quantidade de autores que gostaria e nem li tudo do Nazarian, mas ele certamente é um dos que melhor abraça o trash e o fantástico em sua obra, tratando o gênero com a seriedade que merece, meio que não se levando à sério e sendo divertido por isso.

 

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Bibliografia:

TODOROV, Tzentan. Introdução à Literatura Fantástica. São Paulo: Perspectiva, 2004.