evig: (09 - xícara)
Juliet ([personal profile] evig) wrote in [community profile] contemspoiler2016-03-17 09:43 am

Hell - Paris-71016, de Lolita Pille

Hell foi um hit literário na internet lá pelo final dos anos 2000 e acabei reparando em outros livros mais ou menos parecidos de outras jovens autoras na pequena Nobel de São Roque. Na verdade, eu tomei conhecimento disso porque eu comprei Cobras & Piercing e alguém me indicou Hell, mas lembro me de um outro livro, de uma chinesa, que ficcionalizou sua juventude consumista, hipersexualizada e drogada. No fim, Cobras & Piercing destoa um pouco do tema, e a história aparentemente não tem relação com a autora.

Lolita Pille de fato viveu nos ambientes descritos no livro, morou numa casa luxuosa no bairro nobre de Paris, estudou nas melhores escolas e teve amigos que a excluíram de seu círculo depois que o livro foi publicado. E ele foi bestseller na França. Como eu só li agora, pouco mais de vinte anos depois que ele foi lançado, não posso entender o impacto que ele causou porque eu já consumi muito, mesmo que sem saber, dessa premissa. Mas olhando para o texto hoje, vejo que ele poderia ser excelente; uma pena não ser.

Por quê excelente?
A voz narrativa de Hell ofende o leitor, cospe na nossa cara toda a sua riqueza e destila todo o seu desprezo por tudo e qualquer um que não seja suas grifes amadas. Seus pares? Ela também despreza suas amigas, seus parceiroa sexuais e, claro, seus pais. O que diferencia Hell deles é sua lucidez. De início, achamos que sua depravação é fruto de muito mimo e falta de limites. Realmente não há limites. Mas Hell se degrada porque é infeliz e entediada. “Se os ricos não são felizes, é porque a felicidade não existe”, diz Hell. E ela está extremamente entediada, com sua vida cíclica, incluindo suas degradações. Álcool, sexo e cocaína parecem nunca satisfazê-la. Mas ela não muda, não para. O dia seguinte é sempre igual ao anterior.

É facil então desprezar uma adolescente mimada, que tem tudo o que quer, que faz tudo que quer, sem consequências e não tem nenhuma perspectiva na vida a não ser comprar e se divertir. Mesmo quando ela se apaixona, depois dos seis meses de viagens, o ciclo vicioso retorna e o casal vai se afundando até chegar ao ponto onde o relacionamento dos dois é com a cocaína e não entre si. Se o dinheiro não traz a felicidade, tampouco o amor trouxe. Hell se despreza. É por isso que ela se auto-destrói. Ela não sabe como viver de outro jeito, e ela não quer. O leitor a detesta, a protagonista se detesta e detesta o leitor, e o leitor gosta disso. Eu gosto disso.

Por que poderia ser excelente?
Existe um capítulo na segunda metade do livro em que o narrador é o namorado de Hell, esse dos seis meses. Vou me dar o direito de ser misândrica: eu não queria saber o que se passa na cabeça de Andrea, se ele estando apaixonado ou não por Hell. Primeiro porque ele é a versão masculina dela, um pouco mais cafajeste com o seu intuito de jogar com o narcisismo das garotas com quem saia. Sua voz narrativa é melosa, e saber toda a descrição das ações já descritas por Hell e ver que ele estava apaixonado por ela… era melhor não saber. Ele dá a entender que o amor deles iam salva-los de serem tão desprezíveis e autodestrutivos. Mas ele morre, ainda bem.

O capítulo depois desse é igualmente meloso. Hell tem umas sensações de que “algo está errado” e logo recebe a notícia de que o “amor da sua vida” morreu. E o capítulo tem trechos de poesia/música, tão brega quanto uma songfic. Muito aquém do padrão estabelecido na primeira metade do livro.

Não acho o envolvimento amoroso deles uma tentativa de sublimar. Amor é como a cocaína, mas muito mais complicado. Hell lida com essa perda suprindo com outras drogas, inclusive antes da morte do Andrea, porque ela mesma foi destruindo qualquer possibilidade de ser feliz (levando em consideração sua ideia de felicidade vivida naqueles seis meses). O seu vício pela vida de festas, cocaína e sexo sem compromisso era mais forte que amor. E esse capítulo do Andrea dá uma esperança de que as coisas vão melhorar, que o amor salvará os dois. Só o fato de insinuar isso me fez querer vomitar. Acaba com o livro. Posso estar sendo muito dura, mas depois de ler isso e o capítulo onde ela sofre com a morte dele, o último capítulo, que volta ao padrão dos primeiros, parece uma tentativa muito inocente de querer chocar o leitor. Como se dar o cú para um desconhecido e depois humilhá-lo fosse algo muito chocante a essa altura da história. Lui me chocou mais por causa de uma simples decisão em Cobras & Piercings.

Por fim, a leitura é válida. A autora tem seus grandes momento, e me parece que gosta de abordar o consumo e sexo desenfreado e a juventude rica decadente em seus outros livros, que podem não ser chocantes como provavelmente este foi, mas deve mostrar uma maior maturidade literária.