evig: (15 - leitura)
Juliet ([personal profile] evig) wrote in [community profile] contemspoiler2016-06-18 06:31 pm

Tão insano quanto você - Uma vida em listas, de Tood Hasak-Lown

O chamariz desse livro é, como o subtítulo entrega, que ele se propõe a contar um história atravéz de listas, o que é interessante. E apesar de eu estar um pouco entediada com histórias sobre adolescentes homem-branco-cis-hétero-americano-de-classe-média, a pessoa que me emprestou o livro me contou a tal revelação que o pai faz ao filho; e pensar que o livro trata de como esse adolescente lida com esse novo fato é um tema bacana.

O que não é tão bacana quanto pensei é a experiência da leitura. A sensação é parecida com a de comer vários lanches de calorias vazias: você se estufa, se cansa e acha que leu bastante (umas 80 páginas de uma vez), mas se pensar na história, percebe que, além da revelação do pai, nada mais aconteceu, apesar de você saber um monte de fatos inúteis sobre o protagonista ou sobre nada mesmo (como uma lista dos minutos que se passaram até tal coisa acontecer). O livro está cheio de listas inúteis. Outro aspecto que me desagrada é os tópicos das listas serem feitos com frases desnessessariamente longas, moldadas para que haja a lista, imitando a linguagem do protogonista e fazendo com que o leitor se perca e precise reler o início da frase pra saber sobre o que realmente a lista trata.

Minha memória funciona muito melhor se eu organizar as informações que eu tenho numa história. A sensação que eu tenho lendo as listas é de estar lendo tópicos de um fichamento da história que será escrita. Sinto como se eu estivesse fazendo o trabalho do autor enquanto tento ignorar as tentativas dele de soar engraçado (ou soar desesperadamente adolescente) e, claro, os fatos que são inúteis para a história que eu estou montando na minha cabeça. Claro que isso é meu gosto particular. Há autores que gostam de contar cada segundo do dia do personagem no espaço de tempo que ele se propôs a contar. Ou autores que gostam de por na história detalhes e/ou pensamentos que vão da infância do protagonista até sua morte.

Então, talvez eu tenha chegado ao propósito do autor (que no fim é obviamente explicitado pelo sibtítulo, de novo). Pensar nesse livro como um fichamento do personagem. E se ele fosse narrado propriamente, seria uma narrativa de personagem. Mas o livro não se propõe a falar dos dilemas do adolescente Darren frente à revelação do pai, como eu suspeitei. Nem é um livro sobre adolescência. Ele se parece muito mais com as sitcons americanas sobre família, que partem do olhar do adolescente, que trata cada excentricidade de sua família como um obstáculo para sua felicidade, mas que no fim ama a todos. E no livro esse olhar não tem nada de especial.

A personagem Zoey que é de fato interessante está fatalmente relegada ao papel de par romântico excêntrico do protagonista. E mesmo ela e as outras garotas da história tomarem as primeiras atitudes sexuais com o protagonista, não há reflexões sobre elas, a não ser no caso de Zoey como “garota excêntrica”.

O autor escolhe terminar o livro com um final feliz, mesmo que hipoteticamente sendo brevemente feliz, já que depois de fugirem para outro estado, eles voltariam para suas casas (no caso dela as consequências seriam piores dado sua estadia num rancho para “reabilitação” que restringe o contato à familiares). Eu preferiria que ela tivesse mantido sua recusa, principalmente porque ele diz “por mim” na tentativa de convencê-la a ir com ele quando ela não deveria. Isso mostraria um terrível ponto de vista de que a normatividade venceu sobre a personalidade dela (já que no livro não fica claro se ela sofre de depressão, vício em drogas ou se apenas não corresponde ao padrão rígido inflingido pelos pais hiperconservadores). Seria mais real e de fato a primeira decepção mais profunda sofrida pelo protagonista, nada parecido com um simples rejeição (que dói, claro, mas entre ser rejeitado por uma garota que você deu uns amassos e ver a menina que você gosta perdendo a personalidade por imposição dos pais e da normatividade vigente…). Mas como ela vai com ele, a última impressão é de que vale a pena quebrar as regras pelo amor (e no caso, regras de trânsito e as regras da intituição).

Num todo, o livro trata superficialmente de alguns temas com uma forma inovadora, que por um lado é interessante pela participação do leitor em de fato narrar a história, mas de outro é incômodo como leitura. Só forma não sustenta um livro.

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